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Canogo: Mediação comunitária num enclave insular

ILHA DE CANOGO: RIVALIDADE ENTRE AS ALDEIAS ABU E MENEGUE

Estado: INATIVO
Última avaliação: 2025/10/16

CONTEXTO

A Ilha de Canogo faz parte do sector de Bubaque, situada dentro do Parque Nacional de Orango. Canogo é uma das 22 ilhas habitadas, num universo das 88 que compõem o Arquipélago dos Bijagós. Ela é povoada, maioritariamente, pela etnia Bijagó, cujas principais atividades económicas são a pesca costeira e a agricultura.

Canogo encontra-se situado no enclave entre as ilhas de Orango Grande e a de Orangozinho, junto das ilhas Menegue e Amupa. Ela dista de Bubaque pela viagem de mais ou menos duas horas, em piroga.

Esta pequena parcela de terra, contornada pela água do mar, é constituída por duas tabancas: a de Abu, na zona norte e a de Aneguen, no estreito sul e distam, uma da outra, entre vinte e trinta minutos de deslocação a pé.

A localidade dispõe de uma única escola pública, construída pela ONG nacional ESSETA ANI NINDO ̶ uma ONG nacional com nome atribuído em idioma bijagó que, em português, significa Obrigado a Deus, no âmbito da parceria com a organização religiosa sueca PNU, nos anos 2004, numa área considerada centro entre as duas tabancas. A escola de que se refere funciona com os níveis de 1º a 4º ano. Terminado este ciclo, os pais são obrigados a enviar os seus filhos para Bubaque ou Bissau para estes poderem prosseguir os seus estudos.

Contudo, situações de dificuldades de várias ordens observadas no seio de muitas famílias conduzem os filhos ao abandono escolar acompanhado, muitas vezes, de consequências nefastas tais como o alcoolismo, o tabagismo, o uso de drogas, a prostituição, entre outras. O PNU encarregava-se da construção da escola e de subsídios para os professores,
enquanto o Ministério da Educação Nacional e do Ensino Superior responsabilizava da colocação dos professores.

A ilha não dispõe de meios de transportes, nem marítimo, nem terrestre, regulares para passageiros. Em casos de necessidade, são obrigados a esperar pelas pirogas dos pescadores para facilitar o transporte para Bubaque e Bissau. A estas e outras dificuldades associam-se a ausência das forças de defesa e segurança e a insuficiência de pessoais de saúde.
A inexistência de meios de transporte marítimo que liga a ilha às outras, contextualiza a ausência do estado e o abandono da população à própria sorte e à extrema pobreza.

Análise inicial da situação de conflito

Num dos atelies promovidos pelo Projeto Fórum de Paz, o conflito entre as
comunidades desta pequena ilha foi um dos cinco selecionados pelo Tebanki como prioridades das suas intervenção no terreno. Assim, ficou sabido que nesta localidade, houve:

  • Disputas violentas entre os rapazes pelas mulheres;
  • Ataques mágicos (“Mandji n’utru”);
  • Acesso limitado das crianças a escolas, a saúde, ao transporte, a água potável…
  • Violências físicas individuais e coletivas, opondo os jovens e adultos das tabancas de Abu e de Aneguen

PASSOS DADOS NA MEDIAÇÃO DO CONFLITO

Como é sabido, as prioridades de intervenção de Kumpuduris de Paz, como este, suscitam a concertação sobre os passos, os objectivos ou metas a serem atingidas, as abordagens a serem feitas, as metodologias a utilizar, a identificação da/s pessoa/s recurso e ou entidade/s a ser implicadas. Estes passos foram tidos em conta pelo Tebanki antes que a equipa criada par mediar este conflito se lance ao terreno para efectivamente começar os trabalhos de auscultação e de sensibilização sobre a necessidade de uma boa convivência, de tolerância e de os relembrar que são condicionados pela natureza a viver naquele enclave circundo pelas águas do mar, ainda que aí se resume a vida de boa parte dos seus habitantes.

Evolução do conflito identificado (no terreno)

Nesta ilha, o grupo de trabalho ouviu separadamente as partes em conflito e os responsáveis tradicionais, onde animou os debates e registou as opiniões e as sugestões para a busca de entendimento que aquela população tanto deseja, devido o desacato que lá se vive. Das tantas opiniões registadas, ficou confirmado que o grau de ódio e a divisão instalada nesta ilha são reflexo de vários confrontos físicos e verbais ocorridos entre as partes em contenda, resultando em danos físicos, morais, familiares, materiais e económicos dos dois lados. Esse reflexo negativo está a condicionar o acalmar dos ânimos que se almeja para o povo desta zona insular do
país. Com base em tudo isto ficou registada que as ações coordenadas devem ser implementadas com máxima urgência.

Propostas de solução a nível local

No tocante a sugestões emitidas como possíveis de ajudar as partes a se reencontrarem e recuperar os velhos tratos, destacam-se estas:

  • Que sejam realizadas djumbai de sensibilização sobre os temas não a violência física, boa vizinhança e tolerância e coesão interna;
  • Que seja preparada e realizada Intercâmbio Djumbai de irmandade na busca de coesão, da tranquilidade e da paz entre as duas tabankas de Canogo;
  • A criação da pequena esquadra de POP “Polícia de Ordem Pública” com os respetivos agentes e meios materiais necessários para que a presença de estado seja sentida;
  • Colocação de professores qualificados e aumento de nível escolar de 4º ano até, pelo menos, o fim do 3º ciclo;
  • Garantir o seguimento dos projetos educativos por parte do MENCCD nos capítulos da construção das novas escolas e a reabilitação das existentes;
  • Que as ações de sensibilização que se acham ser precisas, sejam por via de diálogo franco e sério, envolvendo todas as partes identificadas como partes do conflito todos aqueles que foram identificados como parte do conflito ou que foram considerados pessoas capazes de ajudar na recuperação de relações de boa
    vizinhança.

DESFECHO DA MEDIAÇÃO

Com base nos trabalhos até aqui realizados, conclui-se que:

  • Hoje pode-se dizer que a situação acalmou apesar de ainda se continua a registar as violências de pequenas escalas, passou a se registar articulação entre as tabancas, muito embora ainda com muitas reservas, dadas as situações anteriores;
  • Atualmente, vê-se as presenças das Polícias de Ordem Pública nesta
    localidade, nos momentos de grandes eventos, fruto dos resultados das ações de sensibilização realizadas por Tebanki, contando estes com as influências dos ex- Administradores do Sector de Bubaque, que também são membros dessa organização.;
  • Prevê-se a realização de um intercâmbio djumbai de paz – que vai culminar com a assinatura de protocolo de acordo de entendimento, proporcionando, deste modo, condições para a paz duradoura entre as duas tabancas.

Recomendações para a solução sustentável a nível nacional

  • Aumento de número de salas de aulas;
  • Aumento do nível escolar até, pelo menos, terceiro ciclo;
  • Colocação de professores qualificados;
  • Construção de uma esquadra e colocação da força de defesa e segurança;
  • Que seja melhorada a coordenação às presenças dos técnicos de saúde nos postos sanitários;
  • Que a ESSÉTA ANI NINDO retome a parceria com a PNU através da intervenção do Conselho Nacional das Igrejas Evangélicas da Guiné-Bissau e com o apoio do Governo.