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Da fragmentação ao entendimento: mediação na ilha de Wite

Ilha de Wite: Isolamento e conflitos tradicionais

Estado: INATIVO
Última avaliação: 2025/10/16

CONTEXTO

Conflito ligado ao Isolamento desta localidade devido à ausência do estado e que são aproveitados pelas pessoas que se encontram a viver nesta ilha provocando mortes misteriosas– uso de «corté» – a várias pessoas.

A Ilha de Wite, também do arquipélago dos Bijagós na região de Bolama-Bijagós, ela é habitada maioritariamente pelos povos Bijagós e pode-se contar com Fulas e Mandingas, mas já em pequenas comunidades, com pendor das suas ações de desenvolvimento económico virado a agricultura, pesca e criação de gado.

Dista de Bubaque, cerca de três horas de viagem de canoa.

Análise inicial da situação de conflito

No que se tratra deste conflito tradicional que coloca de costas voltadas uma boa parte da população que vive nesta zona do parque, na Ilha de Wite, sabe –se que existem:

  • Inveja, vingança, mortes mágicas nesta zona do parque de Orango;
  • Aumento da pobreza devido a falta de espaço de cultura por causa do abandono e emigração de algumas famílias da zona provocada pela feiticeiria;
  • Isolamento geográfico da ilha devido a ausência do estado;

PASSOS DADOS NA MEDIAÇÃO DO CONFLITO

Como trabalhos levados a cabo por esta equipa de mediação do Grupo di Kumpuduris de Paz desta ilha se fez:

  • Trabalhos de sensibilização e identificação do conflito;
  • Encontro desportivo e criação dum grupo de trabalho local;
  • A seguir, fez-se um encontro com a comunidade local sob o tema: construção da paz, através das atividades culturais;
  • Terceira fase, foi a de encontro mantido com autoridade tradicional da ilha de Wite, seguido de atividade desportiva e cultural;

Evolução do conflito identificado (no terreno)

Na ilha e nas localidades entendidas como bases de conflito, nos encontros com diferentes comunidades que vivem nesta área insular e de acordo com os contactos mantidos, confirmou-se:

  • A existência de atos de inveja, das vinganças e mortes mágicas;
  • O aumento da pobreza devido a perda de espaço para a prática de agricultura, causada pelo abandono da zona por algumas famílias, de forma não desejada;
  • Registou se a ausência do estado motivando o isolamento geográfico da ilha;

Propostas de solução a nível local

Como possíveis soluções, as partes ouvidas em relação a este conflito propuseram que sejam:

  • promovidos encontros de sensibilização capazes de garantir a reconciliação e mudança da mentalidade da comunidade local em relação a tais práticas feiticias consideradas nefastas a convivência sã que se almeja;
  • criadas as oportunidades locais para a promoção de ações capazes de dinamizar actividades económicas e melhorar;
  • criadas as condições para o retorno e reintegração das comunidades que abandonaram a localidade sem vontade própria;
  • colocados as forças de ordem e segurança,
  • aumentado o nível escolar,
  • disponibilizados os meios de transporte marítimo.

DESFECHO DA MEDIAÇÃO

Face a dificuldades que o grupo teve na realização deste trabalho de auscultação, sensibilização e busca de entendimento visto como fundamental para a recuperação das relações comunitárias que aí se verificava, concluiu–se que:

  • Hoje pode-se dizer que a equipa envolvida nesta mediação sentiu que chegou a um nível desejado de entendimento, devido a conciliação das partes em conflito;
  • Falta consolidar a capacidade do grupo para frequentes deslocações as outras localidades identificadas como lugares de conflito ou de risco de aparecimento de novos conflitos para poderem fazer as necessárias abordagens dos mesmos;
  • Foram colocados mais dois professores da escola pública nesta localidade, completando desta feita três professores afectos a escolas desta localidade proporcionando assim o regresso das crianças que ficavam fora do sistema por falta de professor na escola;
  • Foram retomadas as atividades comerciais com a abertura de seis cacifes ou boutiques de venda de produtos da primeira necessidade;
  • Já existem fornos tradicionais para a confecção e venda de pães,
  • Igualmente, já estão a comercializar os mariscos secos (combé, ostras, gandim, entre outros);
  • O jovem acusado de ataques mágicos (corté) está reintegrado e vê-se uma reaproximação paulatina das relações tocadas entre as comunidades;
  • Assiste–se também a reunião entre a comunidade bijagó e a muçulmana, neste caso os fulas que habitam nesta ilha, prova deste, construíram, em conjunto, uma casa precária de «adobe» e «palha» e, posteriormente, foi coberta de zinco, em 2018 que passou a funcionar como centro de saúde;
  • Foi recuperada a circulação marítima e aumentou o número de transportes assim como as oportunidades de acesso de Bubaque – Orangozinho e destes a Wite;
  • Foi travada a fuga/emigração das famílias envolvidas no conflito graças as intervenções do Tebanki.

Obs.: Apesar das acalmias registadas nesta ilha e a reaproximação das partes que estavam em conflito, não foi formalizado o fecho do conflito através da assinatura do memorando ou Protocolo de entendimento entre as partes de conflito e as que testemunharam e ajudaram na sua mediação e busca de soluções encontradas.

Recomendações para a solução sustentável a nível nacional

Fruto das atividades mediatórias o TEBANKI recomenda:

  • Que o Ministério das Pescas, através do FISCAP, proceda com o acabamento e colocação dos pessoais no posto avançado de fiscalização na ilha de Wite;
  • Que o Ministério de saúde proceda, igualmente, a colocação do pessoal médico nesta localidade;
  • Que o Ministério da Educação Nacional crie os incentivos de isolamento aos professores colocados nesta e nas outras ilhas mais isoladas do arquipélago, para reduzir a fuga dos professores aí colocados;