06.01
Gestão urbana, posse de terra e paz comunitária no bairro de Antula

Disputa de terreno com rivalidade territorial de pendor étnico

Estado: INATIVO
Última avaliação: 2025/10/16

CONTEXTO

Antula é um bairro periférico de Bissau, que se encontra situado na zona nordeste desta cidade que está a sofrer um crescimento habitacional acelerado que carece de uma gestão urbanística apropriada.

Como efeito deste crescimento desestruturado, o bairro vem conhecendo conflitos entre os ocupantes tradicionais, moradores, pessoas interessadas na aquisição de lotes de terreno e com as responsabilidades administrativas da câmara municipal de Bissau, através de abuso de influência das autoridades administrativas.

Análise inicial da situação de conflito

Antes das ações de mediação o FINKA FIRKIDJA identificou os seguintes aspetos:

  • Disputa de terreno que provocou a rivalidade territorial étnica entre habitantes de Antula Pabidjar e N’dam Teté;
  • Mau relacionamento entre vizinhos Papeis e Balantas;
  • Ambiguidade da aquisição (do direito de uso privativo) da terra;
  • Justiça com próprias mãos que resultou em espancamentos entre partes desavindas.

PASSOS DADOS NA MEDIAÇÃO DO CONFLITO

O grupo de trabalho criado no âmbito da mediação e transformação pacífica deste conflito levou ao cabo:

  • Encontros de auscultação separados com as comitivas dos dois Régulos da Antula Pabidjar e do Comité de N’dam Teté;
  • Encontro com as associações juvenis da Antula;
  • Encontros separados com as partes envolvidas diretamente no conflito;
  • Encontro com a Direcção de Cadastro da Câmara Municipal de Bissau nas pessoas do Presidente e o seu Chefe de Gabinete;
  • Apresentação pública de uma peça de teatro do oprimido em analogia com o problema em causa;
  • Palestra sobre disputa de posse de terra nas duas comunidades;
  • Encontro conjunto com as partes em conflito;

Evolução do conflito identificado (no terreno)

Constatou-se que, no terreno, a situação era muito mais preocupante do que se esperava, na medida em que:

  • Ficou fortemente ameaçada a boa vizinhança que havia no bairro de Antula;
  • Uma casa construída em N’dam Teté foi demolida pela população de Antula Pabidjar, pelo facto das duas comunidades se encontrar em conflito pela posse daquele terreno;
  • As obras de vedação do muro de uma universidade a ser construída pelo Sr. Ricardo Maria Tchalank foram interrompidas pelo Sr. Luís, membro da comunidade de N’dam Teté;
  • Não havia uma regulamentação coerente que esclarecesse que a concessão de terreno a outrem, em Bissau, requer o consentimento das autoridades da Câmara Municipal desta cidade;
  • As comunidades não recorrem a vias legais ou pacíficas na abordagem/gestão dos seus desentendimentos ligados a disputa de espaço;

Propostas de solução a nível local

Para a promoção das relações de boa vizinhança na Antula e em outros bairros onde se constatam situações de desentendimento, devem ser realizadas as seguintes ações:

  • Sensibilizar as comunidades desavindas pela tomada de consciência sobre as consequências negativas dos conflitos de posse de terra;
  • Sensibilizar essas comunidades a abster-se da violência, facilitar mediações e envolver-se na busca de solução para o conflito em causa;
  • Sensibilizar as associações juvenis a colaborar na busca de solução dos conflitos em causa, programando ações concretas suscetíveis a obtenção de apoios dos parceiros e das autoridades para o desenvolvimento comunitário;
  • Sensibilizar as autoridades tradicionais e administrativas a intervir-se no sentido de contribuir na diminuição de conflitos desta natureza;
  • Sensibilizar a Câmara Municipal de Bissau através dos titulares das áreas ligadas ao terreno a mostrarem total abertura em colaborar no esclarecimento dos diferendos de terra e na mediação dos conflitos em curso e de outros conflitos similares;
  • Que o GKP seja colaborador da associação juvenil da Antula, servindo de antenas de paz no interior das comunidades e ao mesmo tempo Comissão de preparação do «djumbai» de reconciliação entre as partes que se encontram de costas voltadas;

DESFECHO DA MEDIAÇÃO

Fruto de auscultações e sensibilizações levadas a cabo pelo GKP de SAB FINKA FIRKIDJA, no quadro das suas ações de prevenção, mediação e transformação pacífica de conflitos inter-comunitários, entre outros, assim como o envolvimento das comunidades, das autoridades e das associações de base das zonas em conflito, conseguiu-se:

  • A recuperação dos laços da boa relação de vizinhança entre os habitantes dos Bairros de Antula e N’dam que tinham sido tocados

Recomendações para a solução sustentável a nível nacional

O FINKA FIRKIDJA recomenda:

  • Que o Ministério da Administração Territorial crie uma comissão técnica de inquérito e averiguação que envolve o Ministério das Obras Públicas e Inspeção Geral do Ambiente, com eventual contribuição de Secretaria de Estado do Ambiente, Comissão Especializada da ANP para os Assuntos do Direito Fundiário,
  • Tribunal Sectorial da Antula, Tribunal Regional de Bissau, Associação Juvenil de Moradores de Bairro da Antula, Polícia Judiciária para inteirar, “in loco”, da origem do conflito e partes nele envolvidas, identificar as irregularidades administrativas e responsabilizar os atores materiais e morais do conflito em causa;
  • Que o GKP de Bissau assessore a Comissão Técnica criada pelo Ministério da Administração Territorial para a transparência no inquérito e na averiguação do conflito entre as comunidades de Antula Pabidjar e N’dam Teté e que os trabalhos de mediação das autoridades camarárias tenham acompanhamento das mídias nacionais;
  • Que as associações juvenil e de moradores daquele bairro mobilizem, através dos seus parceiros e dos disponibilizados, recursos financeiros para a reconstrução das casas danificadas no decurso do desentendimento;
  • Que haja regulamentação coerente para aquisição dos terrenos e construções, levando em conta as preocupações dos atores/instituições representados na comissão;
  • Que sejam criados, na Câmara Municipal de Bissau, mecanismos de supervisão e seguimento dos processos administrativos ligados à venda de lotes de terreno e às licenças de construção de habitações, armazéns e outros;