06.02
Intolerância religiosa e responsabilidade mediática: o caso da Rádio Luz em Míssira

Intolerância religiosa como línea editorial radiofónica

Estado: PERIGO
Última avaliação: 2025/10/16

CONTEXTO

O Bairro de Míssira fica situado, igualmente, em Bissau, numa das margens da avenida dos Combatentes da Liberdade da Pátria, limitado a norte pelo Bairro d’Ajuda-1ª Fase e a sul, pelo Bairro Gã Biafada. A semelhança da maioria dos bairros dessa cidade, Míssira carece de organização urbanística, sendo co-habitado por pessoas de diferentes convicções religiosas, mas com a predominância muçulmana, seguida de animista e cristã.

A Rádio Luz, situada naquela localidade, é uma emissora que pertence a congregação cristã Assembleia de Deus, que elegeu como linha editorial a evangelização com pendor em ataques verbais e intolerância religiosa que já provocaram vários incidentes com outras comunidades que professam outras opiniões religiosas, principalmente a muçulmana.

Análise inicial da situação de conflito

Este conflito, a par dos outros, foi conhecido fora do trabalho da equipa de mediação, prevenção e transformação pacífica de conflitos no Setor Autónomo de Bissau – foi durante as ações de formação e de capacitação dos membros deste grupo realizadas no quadro do projeto de Serviço Civil para Paz (SCP nº668 – Fórum de Paz), onde se soube que em relação a emissões religiosas da Rádio Luz têm acontecido os seguintes factos:

  • Ofensa moral aos praticantes de outras religiões;
  • Revolta da comunidade muçulmana sobre a situação, com a tendência da justiça ser feita com suas próprias mãos

PASSOS DADOS NA MEDIAÇÃO DO CONFLITO

Na tentativa de ajudar a encontrar solução para este desentendimento ligado à emissão radiofónica, a equipa selecionada para este efeito realizou:

  • Encontros com os administradores da Rádio Luz em que os quais afirmaram nunca ter feito acusações ou ataques com ofensas religiosas contra qualquer outra crença e defenderam que apenas pregavam o evangelho que, caso contrário, estariam, segundo eles, a cometer pecado, pelo que não iriam suspender a interpretação da Bíblia através de rádio;
  • Reclamaram, igualmente, ser vítimas de interrupção de sono provocada por sons dos altifalantes das mesquitas e dos bombolons nos dias de cerimónia de “toka-tchur”, considerando essas situações de ofensas religiosas;
  • Encontros com responsáveis do Conselho Nacional da Comunicação Social;
  • Houve tentativas falhadas de Finka Firkidja organizar reuniões com as diferentes organizações islâmicas sedeadas em Bissau e com o Presidente do Conselho Nacional dos Imames, residente em Mansoa;

Evolução do conflito identificado (no terreno)

Os membros do Finka Firkidja, delegados para tratar da mediação deste conflito, constataram que a situação no terreno requer a intervenção da entidade reguladora dos serviços de radiodifusão, envolvendo pessoas de reconhecidas influências, ligadas a religião islâmica, Assembleia de Deus e forças de segurança, com o propósito de redefinir a linha editorial da Rádio Luz e de outras pertencentes às organizações islâmicas, pela necessidade de cada uma das organizações ou pessoas poder fazer um trabalho específico para acalmar os ânimos, fazer respeitar as leis e as normas sociais de respeito mútuo pelas diferenças e tolerâncias religiosas.

Propostas de solução a nível local

No decurso das ações programadas, o grupo de trabalho enviado a esta missão ouviu dos auscultados as seguintes sugestões:

  • Que toda a sociedade Guineense se mobilize no reforço e no acompanhamento da convivência pacífica entre as comunidades religiosas;
  • Que o Conselho Nacional Islâmico recorra a vias legais ou pacíficas para a resolução dos supostos ataques de que julgam ser alvos;
  • Que o GKP de SAB interpele o Conselho Nacional de Comunicação Social ligado, convidando – o a dirimir os desentendimentos, velando pelo respeito das normas legais;
  • Que seja realizado encontro «Djumbai» de aproximação dos laços de amizade, de troca de opiniões e experiências entre jornalistas e apresentadores de programa das cinco rádios vocacionais ̶ a Sol Mansi, emissora católica, a Nossa, da Igreja Universal, a Luz, da congregação religiosa Assembleia de Deus e a Sensibilização Islâmica e a Paz, muçulmanas, envolvendo o Conselho Nacional da Comunicação Social a ser assessorado pelo Finka Firkidja.

DESFECHO DA MEDIAÇÃO

  • Apesar de ter sido feitas tentativas para resolver este conflito, a análise profunda fez o GKP chegar a conclusão de que a situação em que se encontra o mesmo ultrapassou as suas competências;
  • O GKP de Bissau não tem mandato, porque as parte envolvidas no conflito não manifestaram a disponibilidade para serem mediados nesse desentendimento;

Recomendações para a solução sustentável a nível nacional

  • Que cada comunidade professe a sua religião respeitando a laicidade consagrada na Constituição da República, no seu Artigo 1º;
  • Que as autoridades nacionais usem as suas influências junto das instituições competentes para sancionar os que intentam contra o referido Artigo;