04.03
Quando a fé divide, o diálogo aproxima

Rivalidade religiosa e de liderança em Canchungo

Estado: INATIVO
Última avaliação: 2025/10/16

CONTEXTO

O sector de Canchungo devido a sua situação geográfica, com uma população predominante da etnia Manjaca, cujas principais atividades económicas tem sido a agricultura, a criação dos animais e a exploração dos palmares, com grande movimento das pessoas e bens, vem funcionar como um dos centros de grande atividade comercial na região de Cacheu.

Nas últimas décadas tem atraído o fluxo da imigração de pessoas dos países vizinhos, nomeadamente Senegal, Mauritânia, Mali, Nigéria e Guiné Conacri, que para alem de exercerem as atividades comerciais com intuito de angariar meios económicos para a integração, subsistência e para as remessas ao país da origem, também praticam as atividades religiosas conjuntamente com as comunidades residentes.

O processo de integração destas comunidades em Canchungo tem criado muita inquietação, em alguns casos pelo desrespeito as leis e normas do país, a dificuldade de coabitação com os lideres religiosos anfitriões, as autoridades tradicionais e a sociedade em geral, o que se manifestou no polémico assunto do uso de véus faciais.

Análise inicial da situação de conflito

Durante o Curso básico foram identificadas as seguintes consequências visíveis das contradições internas da comunidade islâmica assim como das ameaças a paz religiosa na cidade de Cantchungo:

  • Aumento desorganizado das mesquitas e rivalidade com poder tradicional,
  • Fundação das escolas corânicas de forma desorganizada e sem aval da DRE Cacheu,
  • Desrespeito para com as normas da GB com destaque para (Documentos ”MGF”, saúde das mulheres e crianças ”Vacinas”, educação)
  • Protagonismo e divergência entre responsáveis religiosos com destaque para o cargo do Imame da mesquita central da Região de Cacheu (Pureza);
  • Uso de véu para fins duvidosos;
  • Evolução tecnológica está a dificultar a educação e orientação dos adolescentes;
  • Fraca afluência das crianças muçulmanas com destaque para as Guineenses de Conacri nas escolas oficiais a favor das escolas corânicas;
  • Aumento, sem controle, de construções desregradas das mesquitas devido o aumento do número dos crentes.
  • Nomeação do Imame da Mesquita Central da Região sem informação e sem consentimento das comunidades locais;
  • Divergência entre Aladji Suleimane Djalo e Aladji Mamadu Mané, porque o 1º não quer reconhecer o 2º como Imame da Região;

PASSOS DADOS NA MEDIAÇÃO DO CONFLITO

Com base nos mesmos critérios de realização de encontros djumbai de auscultação e de sensibilização junto das partes em divergência e a comunidade sobre a necessidade da promoção e clima de convivência sã, entendimento e fraternidade, BAETCHAN PLENTCHE, prosseguiu os seus trabalhos em Canchungo, sendo localidade identificada como palco de divergencia das partes desavindas.

BAETCHAN PLENTCHE realizou em Canchungo dois encontros djumbai de auscultação e de sensibilização sobre a necessidade da tolerância e boa convivência religiosa, respeito pelas leis do país, assim como a possibilidade de encontrar uma solução pacífica para a divergência que opõe as entidades religiosas do sector de Canchungo e da Região de Cacheu.

Os encontros igualmente visavam:

  • que haja entendimentos entre líderes religiosos com base na tolerância, união, cedência, coerência, respeito, a convivência religiosa sã e sem protagonismo;
  • Que haja controlo efectivo por parte das autoridades quanto a criação das mesquitas evitando deste modo choques com poder tradicional;
  • Que sejam respeitadas as leis do país e as orientações das autoridades;

O clima de desconfiança e de desentendimento que colocava de costas voltadas ao Aladji Suleimane Djalo e Aladji Mamadu Mané, foi ultrapassado na sequência da dinâmica das cordas que acabou por juntar de forma espontânea e inesperada esta duas figuras que não se davam bem na mesma corda sendo cada um agarrar uma ponta da corda, fruto desta coincidência as partes desavindas comprometeram em trabalhar junto e afastar o diferendo.

Evolução do conflito identificado (no terreno)

De acordo com os encontros realizados para se inteirar “in loco” dos reais problemas que colocam em desavença a comunidade Islâmica de Sector de Canchungo, o GKP conclui que:

  • O conflito que pairava no seio da comunidade islâmica de Canchungo era de âmbito regional, fruto da nomeação de Aladji Mamadu Mane como Imame Central da Região por parte de uma comissão denominada mista que englobam os responsáveis do CNI (Conselho Nacional Islâmico) e CSI (Conselho Superior Islâmico);
  • O Imame central da Região não se nomeava, mas sim era investido a partir da mesquita central de Canchungo, sendo a primeira da Região de Cacheu;
  • Inexistência de divergência entre mesquitas, nem nos horários de reza, mas sim existe desentendimentos entre alguns responsáveis e seus aliados sobre a liderança da mesquita central da Região;
  • A nomeação do Imame da Mesquita Central da Região foi sem informação e sem consentimento da comunidade da Região;
  • Existência de divergência entre Aladji Suleimane Djalo e Aladji Mamadu Mané, por o 1º não reconhecer o 2º como Imame da Região, alegando desvio de procedimento;
  • Não comparência das mulheres dos emigrantes de Conacri nas consultas pré e pôs natal, dos seus filhos nas campanhas de vacinações, assim como nas consultas das grávidas, têm a ver com as desinformações que foram alvos por parte dos seus antecessores e por motivo de não deixar o corpo descoberto e exposto em frente de alguém que não fosse seu marido, são entre outros motivos;

Propostas de solução a nível local

No decorrer dos trabalhos de mediação o grupo descobriu que era de âmbito regional não sectorial. No que tange aos passos dados e em conformidade com as opiniões recolhidas, ficaram em evidencia que:

  • Há necessidade da divulgação continua das leis do país junto da comunidade imigrante,
  • Deve haver a continuidade das ações de sensibilização no seio da comunidade imigrante de Conakry envolvendo Kumpuduris,
  • Deve haver a marcação e realização de um encontro alargado em Cacheu que sirva de apresentação/reconhecimento do Imame nomeado, envolvendo/nas presenças das autoridades administrativas da Região e de alguns Sectores, os representantes dos dois conselhos islâmicos (CSI e CNI), Imames das mesquitas da Região de Cacheu, Kumpuduris e pessoas influentes;
  • Recomenda-se que as próximas nomeações do Imame da Mesquita Central da Região seja mediante uma auscultação e que a vontade e os anseios da comunidade local/Regional sejam tomados em conta/respeitados;
  • Que sejam reforçados os laços de fraternidade e de harmonia antes existentes entre membros da comunidade islâmica da região como forma de acabar com a intriga, e privilegiar o diálogo como forma de promover a união no seio da comunidade Islâmica;

DESFECHO DA MEDIAÇÃO

O ato que marca o desfecho da Divergência Intra- e Inter-religiosa foi a sessão realizada em Cacheu no dia vinte e seis de Outubro de 2016 na presença das Autoridades Administrativas da Região e dos Sectores, Poder Tradicional, Organizações da Sociedade Civil, Associações de Base, Responsáveis Máximos da Comunidade Islâmica do País (CSI e CNI), Imames das diferentes mesquitas dos sectores da Região de Cacheu, Representantes das diferentes Igrejas, a equipa técnica do Projecto SCP 668 – Fórum de Paz e entre outras personalidades presentes.

O ato teve como um dos momentos altos a dinâmica das cordas e culminou com assinatura do Memorando de Entendimento entre as partes desavindas, testemunhadas pelo Governador da Região de Cacheu Rui Gonçalves Cardoso, pelos representantes dos dois Conselhos Islâmicos e outros assinantes, sob a organização do GKP de Cacheu – Canchungo BAETCHAN PLENTCHE, com o importantíssimo apoio material e financeiro do governador da Região.

Como previsto, o BAETCHAN PLENTCHE, continua ligado ao processo, prosseguindo com os trabalhos de seguimento da implementação dos acordos conseguidos.

Recomendações para a solução sustentável a nível nacional

Como sugestão as autoridades do país o GKP de Cacheu – Canchungo, deixou os seguintes:

  • Que as próximas nomeações do Imame da Mesquita Central da Região Cacheu, sejam mediante uma auscultação e que a vontade e os anseios da comunidade local e Regional sejam tomados em conta;
  • Que seja criada na orgânica do Governo que resultará das eleições de Novembro de 2018, uma secretaria de estado para os assuntos religiosos, que terá como responsabilidade acompanhar e regulamentar as relações entre as religiões;
  • Que o MAT através da câmara Municipal de Bissau e as administrações regionais e Sectoriais, velam pelo controlo e orientação da construção das mesquitas, igrejas e que proteja os lugares sagrados;
  • Que MEN introduza o Árabe no curriculum escolar a semelhança de Francês, Inglês.
  • Que o MINSAP, vela pela equidade do género no acesso as bolsas de estudos e nos centros de formações ligado a saúde e na colocação dos mesmos nos centros de saúde;
  • Que a ANP vigia e protege o princípio de laicidade consagrado na Constituição da República da Guiné – Bissau.