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Quando a liderança divide a comunidade: mediação na ASSOFITA

LUTA PELO PODER - Conflito de liderança na Associação dos filhos de Tame

Estado: RESOLVIDO
Última avaliação: 2025/10/16

CONTEXTO

A Associação dos filhos de Tame, abreviada por ASSOFITA, com sede na localidade de Tame a dez quilómetros de distância da cidade de Canchungo no troço Canchungo-Caió, é uma associação apartidária e sem fins lucrativos, criada na década de oitenta pelos emigrantes desta localidade, residentes na diáspora, com o objectivo de angariar fundos derivados das suas contribuições/quotas e das organizações parceiras, para ajudar na resolução de problemas sociais, nomeadamente da educação, saúde, água e vias de acesso (estrada) que esta comunidade enfrenta dia a dia.

A ASSOFITA foi, sem margem de dúvidas, uma das mais destacadas organizações sociais a atuar no sector de Canchungo, que fez nascer a primeira escola na localidade de Tame que viria a acolher mais de 1200 crianças de primeiro ao nono ano de escolaridade.

Em parceria com a sua congénere de Canhobe, as organizações reabilitaram o troço que liga Tame-Canhobe, uma distância de cerca de dez quilómetros, com fundos próprios.

Análise inicial da situação de conflito

No quadro do Curso básico para Kumpuduris di Paz foram identificados alguns aspetos visíveis, alegações internas e consequências do conflito, que punham em perigo a boa reputação da ASSOFITA e ameaçaram severamente a funcionalidade da escola e portanto o acesso a educação em Tame:

  • Luta pela liderança na ASSOFITA e na Directoria da Escola;
  • Má gestão dos fundos e géneros da escola;
  • Violação dos estatutos da Associação (eleições antecipadas contestadas);
  • Retenção do património (carimbo e descascadora de arroz);
  • Abandono dos professores e alunos da escola;
  • Risco de partidarização da ASSOFITA;

Com objetivo de reconstruir a colaboração entre todos os associados e atingir a refluência dos alunos e professores, ficou retida a necessidade de facilitar a comunicação entre as partes envolvidas no conflito propícia para elaborarem um Regulamento Interno capaz de garantir a independência partidária e religiosa e fixar as delimitações entre a Associação e a
escola, fazê-lo rever por um jurista e aprova-lo em Assembleia.

PASSOS DADOS NA MEDIAÇÃO DO CONFLITO

Com base nos critérios de realização de encontros-“djumbai“ de auscultação e de
sensibilização junto das partes em divergência, BAETCHAN PLENTCHE, na primeira fase, promeveu dois encontros em separado com os lideres das duas alas, seus apoiantes, e representantes da comunidade em Tame, para verificar e orientar-se por cenários que oferecem hipóteses e objetivos para a mediação.

Após longas horas de conversas bem animadas com os participantes, confiantes pelas abordagens feitas e metodologias utilizadas, falando abertamente sobre os reais problemas da organização e das iniciativas antes feitas para resolver a crise, revela-se a problemática por eles vivida.

Evolução do conflito identificado (no terreno)

Assim o GKP registou:

  • Paralisações das atividades escolares, coisa que nunca tinha acontecido;
  • Abandono da escola pelos alunos devido a sabotagem de greve;
  • Abandono da organização pelos associados por descrédito;
  • Transferência de dinheiro da conta da ASSOFITA para a conta de Osvaldo Upera Mendes “Camacar”;
  • Atos de sabotagem, calúnia e difamação por parte de Bernardo Gomes, sobre alegada instrumentalização religiosa dos assuntos tradicionais;
  • Desvio da descascadora de arroz e dos fundos/rendimentos dela resultante, para benefício de Osvaldo Mendes;
  • Realização de eleições antecipadas sem passar pelos critérios previstos nos estatutos da organização;
  • Não reconhecimento dos resultados das eleições antecipadas pela ala de Osvaldo Mendes;
  • Pedido de transferência massiva dos professores para outras escolas devido a ausência de subsídios que a escola oferecia como incentivos;
  • Corte da remessa financeira dos emigrantes a ASSOFITA devido a divergência nela existente;
  • Como consequência do diálogo saído das auscultações, as partes acordaram pela criação de uma comissão ad-hoc para a gerência e administração de géneros da escola, para a cobrança dos dinheiros das propinas e o pagamento dos subsídios aos professores;

Propostas de solução a nível local

Fruto dos trabalhos realizados, as partes apontam como soluções para pôr fim à luta de liderança, os seguintes:

  • Renúncia de mandato pela Direcção de Bernardo Gomes e consequente conclusão do mandato interrompido por parte de Osvaldo U. Mendes;
  • Promoção de um encontro tripartido (Kumpuduris e as partes em discórdia);
  • Realização de um encontro facilitado pelos Kumpuduris, que sirva de reconciliação entre as partes em litígio, alargado as autoridades; deputados da nação do círculo 20, ONG’s, pessoas influentes e as associações congéneres;
  • Reposição do dinheiro na conta da Associação;
  • Devolução da descascadora e dinheiro proveniente da sua produção a organização;
  • Criação de um instrumento que regulamenta o funcionamento da ASSOFITA e a escola.

DESFECHO DA MEDIAÇÃO

Apartir das propostas feitas por parte das pessoas em conflito, seus apoiantes e demais participantes dos  trabalhos de auscultação sensibilização e mediações levadas a cabo pelo GKP BAETCHAN PLENTCHE, várias diligências foram tomadas com intuito de realizar o tal encontro que marcou o fim do conflito. Tal como sugerido, o encontro juntou as partes
desavindas, assim como as entidades e pessoas apontadas como de presença necessária.

No ato que marca o fim do Conflito da Liderança da ASSOFITA em Tame, a Parábola “A TABUA DA PACIÊNCIA” contada pelo Kumpudur Humberto Tavares, marcou o inicio das atividades e das intervenções. A começar por Osvaldo Uperam Mendes, Presidente da Antiga Direção de ASSOFITA, disse que a parábola quer mostrar que não havia necessidade de continuarem com o problema, uma vez que estão a lutar para os mesmos objectivos.

De igual modo, Bernardo Gomes, Presidente da Direcção Actual da ASSOFITA, tomou a palavra e assegurou que o sinal do prego ou a marca deixada na tábua vai servir-lhe de lição na vida e concluiu também que já basta o tempo que andaram de costas viradas, falou da necessidade de existir uma diferença entre a liderança de ASSOFITA e Directoria da Escola e manifestou a sua desistência a liderança da Associação e igualmente revelou disponibilidade
em colaborar com o seu antecessor, ideia igualmente defendida pela maioria dos presentes.

Posto isto, Osvaldo Upera Mendes, satisfeito com a recuperação da liderança, prometeu fazer voltar os bens da ASSOFITA que tinha na sua posse nomeadamente o dinheiro na conta bancária e a máquina de descasque de arroz.

O momento mais marcante do encontro foi de assinatura do memorando de entendimento e de aperto das mãos entre Bernardo Gomes e Osvaldo Opera Mendes que andaram distantes um do outro naquela comunidade durante muito tempo.

Roberto Mendes, Assistente do Centro de Acesso a Justiça de Canchungo, que testemunhou o acto formal da assinatura do Memorando de entendimento felicitou as partes reconciliadas e apelou-as no sentido de unirem esforços para o bem da Comunidade de Tame.

Palavras de encorajamento às partes reconciliadas e participação no desenvolvimento da Comunidade de Tame foram tecidas pelo Kumpudur Eusébio da Costa, membro do BAETCHAN PLENTCHE, quem prometeu o acompanhamento das ações futuras da ASSOFITA
e aplicação do acordo conseguido, palavras que marcaram o fim dos trabalhos e do conflito de liderança na Associação dos Filhos de Tame.

O evento culminou com a foto família a frente do Complexo Escolar Tomás Nanhungue de Tame.

Recomendações para a solução sustentável a nível nacional

Baseando nas aprendizagens ganhas durante o acompanhamento das partes neste conflito, assim como nas conclusões retidas em encontros de intercâmbio de experiencias entre as organizações congéneres do Fórum de Paz, o GKP BAETCHAN PLENTCHE quer deixar as suas sugestões para a resolução sustentável das contradições verificadas durante o processo de mediação em Tame, afim que este conflito proporcione elementos importantes a implementar nas politicas publicas em prevenção de futuros conflitos da mesma natureza.

  • Que o MEN atraves da Direcção Regional da Educação, elabora um documento orientador que define as delimitações de competência entre a Direcção da escola e da Associação para caso da gestão participativa;
  • Em caso de existir um documento desta natureza, que seja orientado a sua implementação e que haja acompanhamento integral da sua aplicação e que seja integrado nos regulamentos internos das escolas de gestão participativa;
  • Que as nomeações dos Directores das escolas sejam feitas por meio de concursos públicos, onde os critérios técnicos e a carreira docente sejam imperativos.