Varela: mediação interétnica em contexto histórico sensível

VARELA (COMUNIDADES DE YAAL E BILA): CONVIVENCIA INTERÉTNICA

Estado: INATIVO
Última avaliação: 2025/10/16

CONTEXTO

Varela foi e é considerada uma das mais valiosas áreas e balneários turísticos do país, com grandes investimentos nas atividades hoteleiras tanto público assim como privado, a praia se encontra em estado muito avançada de degradação devido a erosão costeira e ausência de ações de requalificação das tentativas de investimento ali feitas nos primórdios da independência do país nos anos setenta e atuais.

Segundo o senso de 2009, a localidade tem por 641 habitantes na sua maioria felupe, Fulas, Balantas, Mandingas e Djolas, geram os seus rendimentos económicos através de atividades de pesca, agricultura virada a produção hortícola de cebola e comercio.

Dispõe de uma vasta área visível de minerais denominados de Areia pesada.

Análise inicial da situação de conflito

A semelhança dos outros conflitos, foram conhecidas e identificadas as seguintes situações:

  • Má convivência inter-étnica entre as populações da aldeia de Yaal, habitada pelo grupo étnico Felupe, e parte da outra Aldeia, Bila, com população multiétnica, entre os quais há Mansoncas, Djolas, Mandingas e Balantas;
  • O conflito começou desde os anos 40 do século XX com a colocação do cipaio pela entidade colonial que, controlava o território na altura;
  • Na localidade de Bila, uma parte da população é oriunda de Casamança, uma Região Senegalesa afectada pela guerra provocada por rebeldes que atuam na área há várias décadas, por aceitação do poder colonial, na altura, a titulo de refugiados que vieram pedir acolhimento nesta localidade por causa da rebelião nas suas terras de origem;
  • Existência de dez casos de mortes de diferentes naturezas, num horizonte temporal de 10 anos;

Na tentativa de pôr fim aos diferentes casos de mortes, a comunidade de Yaal tomou à iniciativa da colocação de um sinal de coação “Mandjidura” no porto de pescadores, em Janeiro de 2012, impedindo a utilização do porto para as atividades de pesca à sua congénere de Bila e outros utilizadores.

  • Igualmente proibiu a comunidade de Bila de utilizar espaço terrestre para atividades de lavoura, corte de chabeu e de palha necessária à cobertura tradicional das casas e venda de terrenos, por considerarem comunitárias;
  • Má relação entre filhos e netos dos Felupes de Yaal considerados ocupantes tradicionais desta zona e os considerados hóspedes residentes em Bila desde a era colonial;
  • Falta de produtos agrícolas, fraco rendimento da atividade da Pesca;
  • Fraco beneficio das mulheres de Yaal em relação a exploração do rio da zona enquanto donos da terra, por não disporem de canoas de pesca como as suas companheiras de Bila;

PASSOS DADOS NA MEDIAÇÃO DO CONFLITO

Em cumprimento do seu plano de ação, e com intuito de ver melhorada a relação entre os populares de Bila e Yaal, o grupo Utchokooral realizeo:

  • dois encontros djumbai em separados, de auscultação e de sensibilização com as duas comunidades com intuito de ver retomadas as atividades de pesca e de agricultura interrompidas pelo desentendimento;
  • sessões djumbai de sensibilização com os comités das duas aldeias divergentes;
  • um encontro djumbai envolvendo as comunidades de Varela Yaal e Varela Bila, o encontro em referência serviu não apenas para sensibilizar e auscultar as partes, assim como para recolha de subsídios que serviram das possíveis soluções do desentendimento.

Evolução do conflito identificado (no terreno)

Fruto das ações supracitadas do UTCHOKOORAL, compreendendo o acalmar dos ânimos, no terreno confirmou-se as situações antes identificadas, com o decorrer dos trabalhos, houve manifestação das partes em enterrar os machados de guerra, privilegiando o diálogo, os interesses comuns e os laços históricos que os unem.

Propostas de solução a nível local

Considerando que o conflito em abordagem vinha a desenrolar desde a época colonial, o seu enraizamento pode-se considerar profundo e na espectativa de ser resolvido e garantido a continuidade dos resultados a encontrar, as partes propõem:

  • Que seja integrada uma pessoa de confiança da comunidade de Yaal, por ela apontada no GKP UTCHOKOORAL, para poderem estar dentro do processo através desta figura;
  • Que estejam presentes em acompanhar o desenrolar dos trabalhos da mediação deste conflito e das outras em processo de mediação na secção, mantendo desta feita o GKP através desta figura na comunidade perto dos acontecimentos e informado em tempo real;

DESFECHO DA MEDIAÇÃO

Como resultado dos encontros djumbai de auscultação e de sensibilização levado a cabo por GKP visando à necessidade de retoma da convivência, da confiança e dos laços de parentesco que os ligam, conseguiu os seguintes resultados:

  • A comunidade de Yaal revelou não estar interessada em continuar a falar do conflito ou assunto ligado ao assunto, devido às vergonhas que está a proporcionar;
  • Os implicados manifestam a vontade de voltarem à normalidade e a retoma dos contatos e laços fraternos que se assistia;
  • Reconheceram que as ideias de abandonar os desentendimentos devem ser apropriadas e que a exploração dos recursos deve implicar e beneficiar a todos os habitantes da zona, desde que não seja por fins comerciais;
  • Manifestaram-se disponíveis a estarem atentos e preventivos aos atos que podem provocar eventual ré- aquecimento do desentendimento;
  • O porto de pesca foi reaberto e a “Mandjidura” foi removida pelas autoridades, os pescadores retomaram as suas atividades de pesca com tácito consentimento da comunidade de Yaal e com a vontade expressa da comunidade vizinha;
  • Os pescadores retomaram as suas atividades de pesca;
  • As colaborações entre os pescadores nacionais de ambas as aldeias e os estrangeiros foram retomadas parcialmente;
  • Foram reforçadas as relações entre jovens das duas aldeias;
  • Foram criadas as condições para que haja a comunicação entre três elementos do Grupo de Kumpuduris de Paz residentes em Varela Bila com o Comité de Yaal, através da troca dos contactos;

Recomendações para a solução sustentável a nível nacional

No tocante a este conflito parece ficar adiado, pelo que recomenda – se:

  • Ao Ministério de Interior, que veja pela reabertura da esquadrada de POP em Varela e colocação dos efetivos munidos de meios de trabalho necessários;
  • Ao Ministério da administração territorial, através da Administração local, que se construa uma infraestrutura capaz de abarcar os serviços administrativos como:
  • Administração, Comercio, turismo, Educação, POP, Pesca – Capitania, Recursos Naturais, GN – Alfândega, Migração capazes de fazer sentir a presença do estado nesta localidade;
  • A ANP, elaborar e divulgar o regulamento para a aplicação da lei de terra;
  • Que seja criado e instalado neste centro um gabinete de mediação e resolução pacífica dos conflitos;