Num país onde o Estado muitas vezes demora a chegar, a paz tem sido construída à volta da árvore, no chão batido, com palavra e escuta. É isso que o “Bantaba di Paz” vem mostrando. A iniciativa do CTO-BISSAU Fórum de Paz, WANEP-GB e Voz di Paz soma e segue, levando mediação popular a lugares onde não há tribunal aberto nem barco regular para atravessar até ele.
De sul a norte, o retrato repete-se com sotaques diferentes. Crescem os conflitos de posse de terra, e o trabalho do N’Nafa Sobia com as comunidades tem sido essencial para separar reivindicação de propriedade, tensões religiosas e outros atritos do dia a dia. A delinquência juvenil surge como tema transversal. Em Uno, o Grupo Tebanki aponta o mesmo nó: com o edifício do tribunal de Bubaque sem funcionar, o acesso à justiça para a população das ilhas fica preso à falta de meios de navegação.
O cenário não é isolado. Em Cacheu, na zona de Baetchan Plentche, fala-se de pouca colaboração entre entidades administrativas locais. Em Bafatá, leste do país, faltam técnicos de saúde e educação e há escolas abandonadas. São vazios que não esperam por despacho: abrem espaço para o conflito.
Diante disso, os parlamentares populares reunidos nos bantabas têm sido claros e razoáveis nos pedidos: colocar técnicos de educação e saúde onde fazem falta, equipar hospitais e centros de saúde, abrir tribunais de setor e garantir que as autoridades locais tenham condições reais de responder às demandas da população.
O “Bantaba di Paz” não substitui o Estado, mas lembra-o do essencial. Onde não há toga, pode haver conversa. Onde não há gabinete, pode haver compromisso. A mediação popular não é justiça de segunda. É muitas vezes a primeira porta, a que evita que um desentendimento de terra vire violência, que uma queixa religiosa se transforme em rutura, que um jovem sem rumo encontre na delinquência a única resposta.
Formar consciência cívica crítica e participativa é isto: juntar vizinhos, régulos, jovens, mulheres e autoridades para procurar soluções coletivas, viáveis e sustentáveis. Sem gritaria, sem promessas vazias. Com pés no chão.
Que os bantabas continuem. E que cada recomendação saída deles encontre ouvidos atentos em Bissau e em cada setor. Porque paz duradoura não se decreta. Semeia-se, conversa a conversa, comunidade a comunidade.
Mamandin Indjai
Professor, Jornalista, Administrativista, Diplomado em Educação para Paz e Cidadania