A paz não vem de Bissau. Vem das tabancas.
Bantaba di paz prova a resiliência do povo.
Enquanto o Parlamento continua fechado e a política oficial se perde em disputas de poder, é nas tabancas, nos bairros e nas regiões esquecidas que a Guiné-Bissau tenta não desmoronar. Chama-se Bantaba di Paz.
A iniciativa do CTO-BISSAU Fórum de Paz, WANEP-GB e Voz di Paz não promete milagres. Faz algo mais urgente: senta as pessoas. Põe vizinhos, anciãos, jovens e mulheres a identificar, refletir e medir os conflitos que corroem o dia a dia. E funciona porque parte de uma verdade simples: quem vive o problema conhece a solução.
Boé dói na consciência nacional. Berço da independência, hoje não tem escola, não tem hospital, não tem Estado. Só aparece no mapa físico. Na roda de conversa do Bantaba, a população não esperou por Bissau. Decidiu agir: trabalhar na organização de um lumo com o Senegal para escoar produtos, já que as estradas apodrecem e o isolamento mata mais que a fome. Umas recomendações cobram o governo. Outras, o povo já começou.
Bambadinca entendeu que delinquência juvenil não se resolve com porrete. O Grupo de Kumpuduris ModjingolGona trabalha para tratar a causa, não só o sintoma: a saúde mental dos jovens. Catió mete a mão no vespeiro da terra, mediando conflitos de posse que o tribunal não alcança. No Setor Autónomo de Bissau, os núcleos de expressão dos bairros já fazem o que a polícia sozinha não consegue: segurança pública com cara de comunidade por intermédio de formação e sensibilização sobre cidadania.
Tudo isso acontece enquanto deputados eleitos estão calados e sem casa e o Estado ausente. Por isso os “deputados sociais” do Bantaba recolhem recomendações que deveriam estar na mesa do Conselho de Ministros. São propostas concretas, nascidas do chão, que exigem políticas públicas inclusivas e exequíveis. Não discursos.
O Bantaba di Paz envergonha e ensina. Envergonha porque mostra o tamanho do abandono: se o povo precisa substituir o Estado em Boé, é porque o contrato social rasgou. Ensina porque prova que resiliência não é discurso de ONG. É um povo que, mesmo traído, ainda acredita que conversar debaixo da árvore resolve mais que gritar na rádio.
Não romantizemos a ausência do Estado. Mas também não ignoremos a força que nasce quando o povo se assume como primeiro responsável pela sua paz. O Bantaba não pede aplauso. Pede resposta. Ou o governo escuta essas recomendações e transforma em política pública, ou confirma de vez que Boé, Bambadinca, Catió e tantos outros só existem no mapa para o inglês ver.
Professor, Jornalista, Administrativista, Diplomado em Educação para a Paz e Cidadania