Bantaba di Paz: Guiné-Bissau, o chão do diálogo e multilingue

Nas aldeias e bairros da Guiné-Bissau, a Bantaba nunca foi apenas um lugar físico; é o espaço onde as palavras se cruzam, onde os mais velhos escutam os mais novos, onde o crioulo, o fula, o mandinga, o balanta e outras línguas coexistem sem disputa. É esse símbolo simples, cotidiano, profundamente nosso que sustenta a iniciativa Bantaba di Paz, lançada pelo CTO-BISSAU Fórum de Paz, WANEP-GB e Voz di Paz.

Em março, abril, maio e junho, o país está convidado a ocupar, novamente, as suas bantabas. Não se trata de um projeto importado, nem de um discurso vazio. Trata-se de devolver às comunidades o poder que nunca deveriam ter perdido: o poder do diálogo. Num tempo em que a política nacional frequentemente se fecha em corredores estreitos, a proposta lembra que a estabilidade não se decreta em gabinetes; constrói-se nas conversas partilhadas, no reconhecimento de que cada voz carrega um pedaço da solução.

A força da iniciativa está na clareza dos seus valores. Ela não impõe uma agenda externa, mas apoia-se em valores comunitários, respeito, escuta, participação. No lugar do monólogo, propõe diálogo inclusivo; no lugar da exclusão, convivência multicultural; no lugar do silêncio, ética coletiva. Esses princípios não são abstrações: ganham vida quando agricultores, pescadores, professoras, jovens e líderes tradicionais sentam-se juntos e falam das colheitas, da segurança, dos filhos, da terra. É nesse cotidiano que a paz deixa de ser panfleto e se torna prática.

A Guiné-Bissau é multilingue e, por natureza, plural. Essa diversidade foi muitas vezes tratada como fragilidade; Bantaba di Paz a assume como riqueza. O diálogo em várias línguas não é obstáculo, é sinal de vitalidade. Cada expressão carrega memórias, modos de ver o mundo, formas de resolver conflitos. Quando essas formas se encontram na bantaba, surge uma ética compartilhada, mais forte do que qualquer decreto.

É claro que o caminho não é automático. Diálogo exige paciência, exige aceitar que nem todas as respostas virão rápido. Mas é exatamente essa lentidão que garante raiz. Processos apressados criam acordos frágeis; processos enraizados nas comunidades criam compromissos duradouros. A iniciativa acerta ao apostar nos meses nestes meses como época marco: não para encerrar a conversa em junho, mas para reacender um hábito que deve permanecer.

A Guiné-Bissau está a perder o valor do diálogo, muito embora seja país do diálogo. Agora, Bantaba di Paz convida a lembrar essa capacidade e praticá-la em cada setor, em cada região, em cada encontro de fim de tarde. Paz sustentável não é utopia distante: é o resultado de bantabas vivas, onde o povo guineense reconhece, novamente, que a sua maior força é a palavra trocada em comum.

Que as bantabas se encham, que as vozes se cruzem e que o país inteiro escute, mais uma vez, o som familiar de um povo que prefere conversar a calar.