...para desarmar o conflito e armar o futuro
Há iniciativas que nascem em salas refrigeradas e morrem no primeiro atrito com o real. Outras brotam no chão batido da tabanca, onde o vento traz poeira, cheiro de mancarra e vozes que se cruzam sem roteiro. A Bantaba di paz, uma semana de reencontro que se estende até junho, puxada pelo Fórum de Paz, WANEP-GB e Voz di paz, pertence à segunda espécie. Não promete milagres. Propõe algo mais raro: tempo para escutar.
Por todo o país, homens, mulheres, jovens e menores sentaram-se em círculo para nomear problemas que já conhecem de cor. Em Bafatá e Gabú, os agricultores e pastores esbarram-se por falta de regras claras; em Tombali, o conflito de uso da terra sangra onde o Estado quase não existe; em Canchungo, o roubo de gado tira o sono; em São Domingos, a posse da terra vira sentença de futuro; em Bissau e Bubaque, o custo do pescado aperta famílias inteiras. Nenhuma novidade para quem vive aí. A novidade é falar junto, sem rodeios e sair com uma agenda comum: delimitar zonas de pastagem, reforçar capacidades locais de mediação, ancorar direitos humanos na prática, não no papel.
Chamo isto de cidadania social: gente sem cargo nem orçamento que, mesmo assim, produz recomendações às autoridades. Não é protesto de ocasião. É trabalho lento de costura ponto a ponto entre vizinhos que discordam mas partilham o mesmo poço. Quando três organizações da sociedade civil decidem regar valores comuns, fazem mais que organizar eventos. Lembram ao país que a dignidade da vida humana começa quando o outro deixa de ser ameaça e volta a ser interlocutor.
Não escrevo para dourar a realidade. Sem infraestruturas, sem justiça acessível, sem investimento em formação contínua, a Bantaba será só memória bonita. Escrevo porque, nesta semana de dinâmica e debate, vi material para política pública de verdade: listas de problemas e listas de soluções nascidas do conflito real, não de consultoria importada. Delimitar pastagens não é panfleto; é GPS social para evitar que uma enxada e um rebanho virem faísca. Capacitar atores locais não é caridade; é pré-requisito para que a paz não dependa de heróis, mas de procedimentos.
A mensagem não é otimista por ingenuidade. É firme por experiência: o valor do homem e da tabanca humilde reativa-se quando há espaço para dizer em voz alta o que dói, e para escutar a resposta sem pressa. Se as autoridades recolherem essas recomendações e as traduzirem em recursos, normas simples e mediação comunitária apoiada, teremos menos notícias de roubo e disputa, e mais casos resolvidos antes de virar queixa.
A Bantaba di paz não salvará a Guiné-Bissau sozinha. Mas mostra onde a paz se fabrica: no ritmo modesto da conversa que não foge do conflito, só lhe muda o destino. Que a semana vire hábito. Que o círculo não se desfaça quando as visitas forem embora. É ali, entre um reparo e outro, que a vida em comum volta a valer.